Kassum – Axé da balança

Xangô, o senhor da justiça, aquele que nos julga a todo momento em nossos erros e acertos.
Dentro do batuque há um momento específico onde é realizado um julgamento muito importante, tido como ponto alto de toda a obrigação. Falaremos um pouco sobre o famoso Emissô Kassum: o Axé da Balança. Kassum, axé da balança. Balança é o nome dado a roda ritual feita no batuque em determinadas ocasiões. Tal roda, diferente das demais realizadas no xirê, é formada por um número pré-definido de pessoas, geralmente múltiplos de seis, que é a conta de Xangô, ou, como em algumas famílias, do número do Orixá da casa; todos de mãos dadas, organizados conforme o Orixá de cabeça, na ordem do Orunmalé. Um fato interessante: não se realiza a balança com nove pessoas ou seus múltiplos, pois atribui-se esse número ao ritual de Egun. A balança é realizada sempre que há sacralização de quatro-pés e só participa desse ritual quem tem no mínimo esse nível de obrigação. Ela é o julgamento da obrigação. Esse julgamento ocorre através da manifestação do Orixá em forma de ocupação, sendo responsabilidade do dono da casa interpretar o veredito dos Orixás nesse momento. Alguns antigos diziam que não só o número baixo de manifestação ou nenhuma manifestação são maus presságios, mas também a forma como o Orixá se manifesta. Se o mesmo chegasse quando a balança estiver se fechando significava que o Orixá está aprovando a obrigação; da mesma forma, se chegar quando a roda estiver se abrindo significa que o Orixá está reprovando a obrigação. Alguns textos dizem que o Kassum deveria ser feito ao ar livre, como um reconhecimento do poder de Xangô, suplicando que ele envie um raio para aquela roda e que a energia passe por seus corpos sem feri-los, a menos que algum deles quebre o elo de fé, recebendo pra si toda a descarga elétrica, o que teria consequências inimagináveis. Pelo sim, pelo não, nunca estoure uma balança, mesmo que não esteja caindo um raio no meio do salão. Desde os tempos mais remotos dentro do Batuque, existe muito receio entre os religiosos envolvendo o “arrebentar da balança”, tido como uma certeza de que há algo de muito errado com a obrigação ou, segundo algumas pessoas, um prelúdio de morte para algum dos participantes do ritual. Nessas ocasiões, existem preceitos muito específicos que podem variar de acordo com a tradição familiar, ficando sob responsabilidade do onilú ou tamboreiro a condução geral da balança e as providências imediatas no caso de estourar uma balança, bem como dar seguimento, de modo excepcional, ao xirê. Apesar de parecer muito complexa, a Balança é bem simples e quem vai participar deve estar atento a poucos detalhes como por exemplo a forma como são dadas as mãos: muitos costumam entrelaçar os dedos e isto é visto com maus olhos por alguns religiosos pois a maneira correta seria juntar as mãos como em uma dança, afinal é disso que se trata o ritual. Outro mal hábito que passa despercebido é o “embalar”; pessoalmente, eu não aprovo e não incentivo, pois esse ato, o de embalar, utilizamos no ritual para Egun. Normalmente, o kassum é realizado no primeiro batuque, isto é, no primeiro xirê, pois ainda haverá obrigações de 4 pés arredas para serem julgadas e segundo a maioria dos religiosos não haveria a possibilidade de realizar o axé semanas ou até meses depois da obrigação, afinal de contas não haveria o que ser julgado, correto? A menos que não seja realizada a levantação, mas é melhor não darmos ideias… Existem ainda algumas variações da balança como por exemplo a Balança de Lodê, formada apenas por homens e em quantidade de sete e seus múltiplos, a Balança de Mel, normalmente realizada após a balança tradicional e formada unicamente por filhos de Orixás de Praia (Oxum, Yemanjá e Oxalá) e a Balança da Casa, onde só participam os membros da família e o critério de julgamento é invertido: a manifestação do Orixá é um sinal de erro na obrigação. Apesar de todo o mistério e cautela que se deve ter para com a balança, ela ainda é um dos momentos mais bonitos e emocionantes do Batuque, onde ao som cadenciando do ilu ou tambor, que vai acelerando gradativamente, a roda vai “fechando e abrindo”, enquanto quem está ao redor saúda a todos os Orixás. A chegada do Orixá é sempre recebida com muito entusiasmo por todos os presentes. Ao final, quando o tambor já rufa mais rápido e a balança chega ao seu ápice, o onilu corta para o Alujá e então finalmente as mãos podem se separar para que os Orixás que ocuparam seus eleguns possam dançar essa que é uma das danças mais bonitas da nossa religião. Embora eu tenha tentado expressar de forma mais completa e clara como funciona a Balança, somente quem já presenciou sabe a energia que emana desse axé e a beleza que tem esse ritual.

Axé a todos

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