Ministério Público denuncia servidora da Prefeitura de São Carlos por injúria racial

A auxiliar de limpeza Benedita Maria dos Santos ainda se emociona ao lembrar do que passou na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Carlos — Foto: Felipe Lazzarotto/ EPTV

Ministério Público denuncia servidora da Prefeitura de São Carlos por injúria racial

O Ministério Público de São Carlos denunciou a servidora municipal comissionada Carla Maria Campos – atualmente atuando como diretora na Fundação Pró-memória – por injúria racial contra duas funcionárias da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, na qual atuava como chefe de gabinete, em fevereiro desse ano.
Para a promotoria, houve ofensa à honra das duas subordinadas, motivada pela cor da pele.
Uma das pessoas ofendidas foi a auxiliar de limpeza Benedita Maria dos Santos. Ela disse em depoimento ao MP que foi mandada para um quartinho porque lá era lugar de negro.

“Ela falou pra mim que, assim que terminasse o serviço, ficasse no quartinho. Não era pra eu conversar com ninguém. Que lugar de negro é lá no quartinho. E que ela não queria eu conversando pelos corredores com ninguém”, contou.

O “quartinho” é um depósito de materiais de limpeza existente nas instalações da secretaria municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida.
“Uma dor no coração que eu não queria mais existir depois que eu ouvi aquilo. Não queria mais existir pra escutar essas coisas de ninguém, entendeu?”
Outra servidora ouvida na ação é a oficial de gabinete Eliani Cristina Florindo. Em um áudio gravado durante uma discussão, Carla insinua que ela estava perturbando o ambiente de trabalho.
“Olha, de repente, sei lá! Umas nuvens pretas, que tá muito feio! Umas situações muitas, muito feio isso”, afirmou.
Eliani diz então: “Umas nuvens negras. Negras e preta é a cor da minha pele.”

A servidora lembra que quando a discussão aconteceu, ela percebeu que a chefe de gabinete já havia dito outras expressões preconceituosas.
“A hora que ela falou isso, me veio aquele choque de realidade. E me veio a minha mente outras situaçõs que eu já tinha passado com ela. Os comentários eram assim: “na época de fazenda de papai lugar de negro era na senzala”.; “Essa raça não devia existir”. Eu tenho certeza que eu deveria existir. Senão não estaria aqui”, diz chorando.

Exoneração e recontratação

Carla negou as acusações. “Eu jamais fiz a questão de racismo em lugar nenhum. Nunca na minha vida. Tenho pessoas negras dentro da minha família. Minha secretária é negra, que cuida da minha casa. Tenho duas primas adotivas negras. Meus funcionários da fazenda são negras. Eu nunca fui racista na minha vida. Nunca! Quem me conhece sabe muito bem disso”, disse.
A Prefeitura de São Carlos abriu sindicância para apurar o caso e Carla foi exonerada mesmo sem o processo de investigação ter sido concluído e um mês depois foi recontratada num cargo de confiança como diretora na Fundação Pró-memória de São Carlos, que também pertence à prefeitura.
A prefeitura informou que a sindicância está em andamento e sob sigilo e não quis se pronunciar sobre a recontratação de Carla.
Em setembro, quando ela foi novamente nomeada para um cargo na administração municipal, a prefeitura disse ao G1, por meio da assessoria de imprensa, que o gabinete do prefeito entende que nomeação de cargo de comissão é de livre escolha e só vai se manifestar após conclusão de sindicância.

Punição

O Sindicado dos Servidores Públicos e Autárquicos de São Carlos (Sindspam) defendeu uma punição para o caso.

“Nós esperamos que esse processo não fique somente na injúria. Que ele seja como racismo de fato, que nós acreditamos que vai ser. E que ela seja punida pelo que ela cometeu e que seja exonerada do cargo dela”, afirmou o presidente Adail Alves de Toledo.
O mesmo espera as duas funcionárias que foram ofendidas e ainda convivem com a dor do que passaram.
“Que a justiça aconteça para que se torne exemplo para que outras pessoas pensarem em ofender alguém pela cor da pele pensem mil vezes porque dói”, afirmou Eleni.

“Vi meus netos chorarem. Não quero que eles passem por isso. E nem ninguém mais passe por isso. Ninguém. Nem da minha família e nem família alguma. Nem branco, nem preto, nem azul, nem vermelho. Eu não quero isso daí. Isso daí é muito triste.”, disse Benedita.


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