Xirê de Vibrafone, de Ricardo Valverde, nos abençoa com o jazz dos terreiros

Xirê de Vibrafone, de Ricardo Valverde, nos abençoa com o jazz dos terreiros

Xirê é uma palavra Yorubá que significa roda ou dança. É utilizada para evocação dos Orixás, conforme cada nação. O músico soteropaulistano Ricardo Valverde é jazzista, chorão, daqueles que conhece música, estudou e toca um instrumento um tanto incomum, o vibrafone. 

Como dito acima, ele nasceu em Salvador, apesar de viver em São Paulo desde os dez anos. Posto isto, carrega consigo, junto com o axé dos orixás, o suingue baiano. E foi na hora de misturar isso tudo que surgiu o lindo álbum, “Xirê de Vibrafone”, que o músico acaba de lançar. Valverde é Bacharel em Percussão Erudita pela Faculdade Fito e em Percussão Popular pelo Conservatório Musical Tom Jobim, antiga ULM. Afilhado musical do violonista santista Luizinho Sete Cordas, seu padrinho musical e com o qual divide o palco com o grupo Regional do Véio.

Além disso, tem atuado ao lado de diversos artistas como Roberto Mendes, Dominguinhos, Nelson Sargento, Gereba, Anastácia, Riachão, Arismar do Espirito Santo, Paulinho Boca de Cantor e Galvão (Novos Baianos), Maestro Branco, Cristina Buarque, Paulo Padilha, Fabiana Cozza, Borba, Dona Inah, Silvia Goes, Danilo Brito, Marina de la Riva, Juliana Amaral, Moacyr Luz, Monarco da Portela, Diogo Nogueira entre outros. Valverde também fez parte do grupo Cochichando.

A panelada, feito omalá com ratatouille, resulta em uma bela e ampla parede sonora onde cabem eras, experiências, nações e oceanos cruzados. Os ogãs fazem o pano de fundo tanto para o vibrafone de Valverde quanto para os instrumentos de sopro e harmonia.

A sonoridade é única, inventiva, as frases melódicas são bonitas, fluidas. Composições ricas que oscilam dentro das várias influências sem nunca se revelarem totalmente. O compositor/instrumentista não se deixa levar pela tentação de folclorizar a sua música.

Seus temas são curtos, aparentemente simples, mas um tanto inesperados. Parece compor na linha modal que, por vezes faz lembrar o antológico álbum “Kind of Blues”, do trompetista americanos Miles Davis. Em tantas outras estamos mesmo no centro de Salvador, a Roma negra.

E é nessa transposição de universos que o músico, com enorme criatividade, foge todo o tempo da apropriação cultural e insiste em uma sonoridade muito própria. Gostem ou não, a música de Valverde não se traduz em colagens, muito menos cópias. É original do começo ao fim. É dele e pronto.

Alguns cantos muitos sutis são introduzidos, como por exemplo em “Ogun”, onde guitarra e voz seguem em um extenso e melódico improviso. Coisa muito mais do jazz, que no álbum se confunde com as vozes dos terreiros.

A tensão do disco se dá quase todo o tempo entre os atabaques, as congas e o vibrafone do autor. Mundos que, apesar de percussivos, são aparentemente distantes e se tornam muito próximos na música de Ricardo Valverde.

No final das contas, “Xirê de Vibrafone” é música instrumental de primeira, feita pra dar prazer e axé. Um achado sonoro repleto de criatividade e talento.

Foto: André Mortatti / Divulgação
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